PSD exuma cadáver<br>e falseia a História
Depois de ter apresentado há 15 dias um voto de conteúdo correcto sobre a Ucrânia, o PSD inverteu a marcha e submeteu a sufrágio, dia 3, um outro voto em sentido diametralmente oposto, a pretexto da fome que assolou aquele país no início da década de 30 do século passado e por si classificado de «genocídio».
Trata-se de uma iniciativa – após a embaixadora daquele país ter atacado através da imprensa a Assembleia da República pela aprovação de um voto de condenação pela ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia – que no entender da bancada comunista só pode ser interpretada como um «acto de subserviência perante a arrogância da embaixadora».
«Veio curvar-se e pedir-lhe humildemente desculpas pela suposta afronta apresentando um voto em que procede à exumação do cadáver de uma campanha lançada há vários anos pela extrema-direita ucraniana assente numa grosseira violação da verdade histórica», sublinhou o deputado comunista António Filipe.
Entendendo que seria desonesto não reconhecer que naquele período o povo da Ucrânia sofreu uma vaga de fome de grandes proporções e gravíssimas consequências - «para desonestidade já basta o voto do PSD», observou -, António Filipe fez porém notar que a «escassez de bens alimentares que conduziu a essa vaga de fome teve causas diversas, não apenas as decorrentes dos efeitos devastadores da crise económica mundial de 1929 ou de condições climatéricas extremamente adversas mas também dos conflitos gerados em torno das alterações verificadas na estrutura de organização e propriedade fundiária».
«A situação de fome que se verificou no início dos anos 30 em diversas regiões da URSS, mas não apenas na URSS, teve consequências muito graves para os povos atingidos e esse facto nunca foi desmentido», acrescentou, antes de assinalar que «manda a verdade histórica que se diga que essa vaga de fome não vitimou apenas o povo da Ucrânia, vitimou também o Sul da Biolorrúsia, a região do Volga, outras regiões da Rússia e até fora da URSS, a Ucrânia Ocidental, então integrada na Polónia».
«Afirmar como pretende o PSD que a fome de 1932/33 foi um acto de genocídio perpetrado pelo poder de Moscovo contra o povo da Ucrânia é uma tal falsidade que vem convergir com a violenta campanha de provocação contra a Rússia lançada a partir do poder em Kiev, que pretende reabilitar e transformar em heróis os grupos de extrema-direita ucranianos que na 2.ª Guerra Mundial colaboraram com o ocupante nazi», criticou o deputado do PCP.
O texto do PSD recolheu os votos favoráveis do CDS, do PAN e do deputado do PS Brilhante Dias, que pertence à Associação de Amizade Portugal Ucrânia, os votos contra do PCP, BE, PEV e a abstenção do PS.
O PS, que também apresentou um voto sobre o tema, viu também o texto aprovado com os votos ainda do CDS, PAN e BE, o voto contra do PCP e PEV, e a abstenção do PSD.